ENQUANTO E NAO

segunda-feira, abril 02, 2007

PADRE MAX: - um crime que aguarda justiça


A direita e muitos que se dizem de esquerda, impigem-nos-nos a toda a hora a cassete sobre as turbulências do chamado "verão quente" e de todo o periodo do PREC, provocadas, claro está, pela esquerda e sobretudo (poderia lá ser de outro modo?) pelos comunistas.
Tantas vezes o repetem que alguns até já acreditam que foi isso que aconteceu.
Ora a verdade é bem diversa. O verão quente quem o aqueceu, foi a direita reaccionária, revanchista e caceteira. Quem não se lembra do regime de terror imposto por tais arruaceiros (sobretudo em localidades fora dos grandes centros) aos militantes e simpatizantes comunistas, com assaltos, incêndios e depredações aos centros de Trabalho do PCP? Quem não se lembra das mocas de Rio Maior? Quem não se lembra dos mortos junto à sede da PIDE, no último estertor daquela famigerada corporação? Quem não se lembra dos atentados bombistas e do clima de intimidação por parte dos sinistros ELP e MDLP? É caso para se dizer "num lado se vende o vinho e noutro se põe o ramo ", ou como dizia minha Mãe, "chama-lhe, filho, antes que te chamem a ti".
A gente sabe como é.

Passam hoje precisamente 30 anos sobre o assassinato do Padre Maximino e da estudante Maria de Lurdes, num cobarde atentado à bomba, perpetrado por gente que nunca se conformou com as alterações que o 25 de Abril introduziu nas suas mordomias (estúpidos!, bastava ter calma que elas voltaria, como veio a acontecer) e, - da fama não se livra. - com a conivência de pessoas afectas à Igreja de Braga
Até hoje, ninguém pagou por esse crime. Aqueles que tanto prezam a vida e se esganiçam a bramir contra a interrupção voluntária da gravidez, nunca se preocuparam com a supressão da vida a estes dois membros da sua igreja, como encolhem os ombros aos milhares de mortos em que, ao longo de séculos foram assassinados em nome da religião que praticam e defendem.

Eu por mim, nada mais posso fazer, senão recordar aqui este crime, para que a memória não se perca e que, pelo menos, não julguem que nos comem por parvos.

Mas quem disso sabe melhor do que eu é o Padre Mário Oliveira
a quem passo a palavra

1. Foi já há 30 anos que os mataram à bomba, ao Pe. Maximino e à estudante Maria de Lurdes que vinha com ele das aulas que ambos davam à noite a trabalhadores na Cumieira, nas proximidades de Vila Real. Mas o crime continua aí em carne viva. E a clamar por justiça.

2. Não escutar semelhante clamor que se levanta do chão de Portugal e daqueles dois corpos jovens destroçados pela bomba é um outro crime não menos hediondo que o de há 30 anos. Ora, um país cuja História seja tecida de crimes e de sangue de vítimas inocentes que clamam, em vão, por justiça será sempre um país sem remissão, sem dignidade, sem humanidade, mais pesadelo do que comunhão. E tal tem sido o nosso país, apesar de Abril, um Portugal de pequeninos e de chico­espertos a caminho da cauda da Europa, um país de consumidores compulsivos de novelas e de futebol e de Religiões, cada qual a mais esotérica e exploradora, um país de apostadores compulsivos nos jogos da santa casa (quando a casa mãe de todos os jogos a dinheiro é santa, porque não há-de ser santo, e santo subito, o fatimista papa João Paulo II, cujo longo pontificado não deixou pedra sobre pedra do promissor e revolucionário Concílio Vaticano II?)

3. O pior é que quando não nos atrevemos a ser e a viver como seres humanos, depressa ultrapassamos as bestas em inumanidade e em crueldade. Por mais que nos enfeitemos de beatos e de santos, e de outros títulos secularizados cheios de pompa e de circunstância. Aliás, os títulos só assentam bem em quem tem montes de inumanidade a esconder e mãos cheias de sangue a disfarçar. Aos seres humanos com espinha dorsal e frontalidade, os títulos só atrapalham e depressa ficam pelo caminho, com os seus portadores a ser excomungados e votados ao ostracismo. É assim: Ou somos irmãos e companheiros e comportamo-nos como tal todos os dias, ou constituímo-nos em inimigos dos demais. Quem não se faz próximo dos que sofrem e estão para aí votados ao ostracismo torna-se um aborto humano. Pode não matar, não roubar, nem destruir, mas dele não se poderá dizer que é um ser humano integral. Ser mulher, ser homem a valer é comprometer-se com os demais, até que todos sejamos gente. Não se trata de subir, de fazer carreira dentro do Sistema e desta Ordem Mundial intrinsecamente perversos. Trata-se de descer para se chegar a ser. Quando nos promovem e, assim, nos distanciam dos últimos e das vítimas, despromovem­nos em humanidade. A melhor receita para fazer um canalha é promovê-lo a chefe do bando e atafulhá-lo de privilégios e outras benesses. Na Igreja, é fazer de um cristão bispo. Na Sociedade é fazer de um político ministro. Na empresa, é fazer de um trabalhador patrão. Com o passar dos dias, veremos diminuir o ser humano e desenvolver-se um monstro, cada vez mais distante e arrogante na sua relação com os da base e todo mesuras e salamaleque na sua relação com os do vértice da pirâmide que são também os donos de D. Dinheiro.

4. A menos que sejamos como o nosso querido Maximino mártir. Padre, mas com uma salutar prática quotidiana de anti-padre. Padre, mas com coração e braços e cabeça e mãos e pés e corpo de irmão e de companheiro. Escandalosamente próximo das pessoas da base e longe dos templos e dos altares. Sobretudo, longe dos privilégios que a batina e a estola sempre dão a quem se apresenta vestido/disfarçado com uma e com outra. Com ele, aprendemos que podemos assumir serviços, nunca privilégios. Os privilégios corrompem e acabam por fazer desaparecer o ser humano. Ou recusamos os privilégios que o Poder faz questão de conferir a quem exerce determinada função, ou tornamo­nos progressivamente menos humanos. Por isso, quando não nos deixam recusar os privilégios inerentes à função, só nos resta recusar a função. Se a aceitamos, assinamos nesse instante, o nosso próprio processo de despromoção de ser humano, para nos tornarmos progressivamente um funcionário do Sistema e do Dinheiro mais ou menos subserviente.

5. Na sua rebeldia e juventude, o Padre Maximino nunca se deixou enrolar. O seu jeito de ser padre era o seu jeito de ser homem. Como um menino. Atrevido. Indomável. Alegre. Gaiato. Solidário. Desprendido. Pobre. Comprometido. Insubornável. Dissidente. No Sistema, mas sem ser do Sistema. No Sistema, mas para o fazer implodir, nunca para se aproveitar dele. Um padre­para­os­demais. Para que os demais crescessem como pessoas, como seres humanos, em toda a sua originalidade e em toda a sua graça e verdade.

6. Não lhe perdoaram semelhante ser e viver. Tentaram domesticá-lo. Funcionalizá­lo. Clericalizá­lo. Em vão. Onde ele estivesse, estava o Sopro, o Vento, o Espírito. Ainda hoje, trinta anos depois, o seu nome continua a ser maldito. Como Jesus, o de Nazaré (não se iludam. O que hoje é por aí o mais bendito de todos os nomes não é Jesus o de Nazaré crucificado pelo Império e pelo Templo do seu país; é um Jesus light, habilmente reciclado pelo Império de Roma e pela Igreja católica romana que lhe sucedeu). Aliás, a morte violenta com que executaram o Pe. Maximino deixou bem claro urbi et orbi que padres assim nunca mais. A sua curta mas intensa vida histórica deveria ser bênção, exemplo a seguir, alfobre. E é maldição, vergonha, terreno maninho. Os bispos e a Igreja institucional tiveram e têm nojo dele. Nenhum deles apareceu a dar a cara no seu funeral. E hoje, trinta anos depois, continuam aí todos a ter vergonha de pronunciar o seu nome. É como se ele nunca tivesse existido.

7. E, no entanto, é de homens e de mulheres como o pe. Maximino que o nosso mundo precisa. Padres (e homens/mulheres) misseiros e funcionários do religioso, sempre tivemos que bastasse, séculos e séculos. E bispos também. E papas. Hoje, são menos em número, pelo menos os padres (ainda não há crise de vocações para bispo nem para papa!...), mas ainda são demais. Um só que seja e já é demais. Do que precisamos é de padres/presbíteros (homens/mulheres) que sejam seres humanos, irmãos e companheiros dos da base, pais com entranhas de mãe, com cabeça e mãos de parteira, que na relação com os demais ajudem a vir à luz o ser humano que anda em gestação em cada mulher, em cada homem que veio a este mundo. E que corre o risco de abortar e nunca chegar a vir à luz. Porque o Sistema da Alienação e da Mentira trabalha dia e noite, sem fins de semana e sem férias, para fazer abortar todos os que um dia nasceram neste mundo. O Sistema sabe que lá onde houver seres humanos a valer não há lugar para ele. Nem futuro! Por isso tudo faz para que nunca cheguem a ser seres humanos. Fiquem abortos, sempre.

8. Trinta anos depois do assassinato de Maria de Lurdes e do Pe. Maximino, a Igreja a que pertenço e a que eles pertenceram continua aí gritantemente calada. Envergonhada. Sem audácia para se rever no Pe. Maximino. Sem audácia para fazer dele o paradigma de padre/presbítero para o século XXI. Ainda em vida, atirou-o cruelmente para a valeta, quando foi por ele informada que iria fazer da Política (não do Poder!) a sua Intervenção e a sua Eucaristia. Em lugar de o apoiar e reforçar a comunhão fraterna com ele, abandonou-o às feras. Foi como dizer aos seus inimigos: podeis fazer com ele o que quiserdes, que nós não diremos uma palavra, nem esboçaremos um gesto. Ou, pior ainda: podeis cometer o hediondo crime de o matar pelas costas, à falsa fé, que nós jamais condenaremos esse crime. Pelo contrário, esse crime constituirá até um alívio. Para o país. E também para a Igreja institucional que nós, bispos católicos, somos.

9. O terreno ficou livre e a descoberto. E os inimigos do Pe. Maximino puderam avançar e matá-lo à vontade. Provavelmente, terão celebrado festivamente a sua morte. Pela calada. Numa liturgia inumana como eles. E com a bênção de algum cónego de nomeada e de algum bispo residencial. Não é verdade que também os sumos sacerdotes Anãs e Caifás, em Jerusalém, no tempo de Jesus, celebraram festivamente a sua morte violenta na cruz?

10. E agora? Trinta anos depois, tudo está consumado. Está? Não, não está! Tudo está apodrecido. Trinta anos depois, ele é corrupção por toda a banda. Ele é hipocrisia e mentira a jorros. Ele é Idolatria sem limites. O senhor D. Dinheiro não tem mãos a medir para atender tanta clientela. Como país, vamos a pique para o abismo, agora com Cavaco e Sócrates ao leme. Silenciaram os poetas e os profetas. Mataram o Debate. Nos seus medos da Liberdade e da Responsabilidade e na mais completa subserviência ao grande Capital (“Às suas ordens, meu Capital”, diz a manchete do último Fraternizar!), esta dupla de dirigentes sem entranhas de humanidade tem o condão de tornar as almas das portuguesas, dos portugueses ainda mais pequenas. Até quando? Até quando nós consentirmos. Soprasse todos os dias em nós o Vento/Espírito que um dia fez acontecer e viver o Pe. Maximino e este país seria outro. Mas o que hoje sopra forte por aí é o Vento/Sopro de D. Dinheiro. Quem se atreve a resistir-lhe e a ser e a viver pobre até ao fim dos seus dias? Quem se atreve a ser ateu deste deus cruel que se alimenta de gente? Por mim, aqui estou, pobre, longe dos templos e dos altares, amigo, irmão e companheiro, no jeito do Pe. Maximino. Contem comigo para as novas clandestinidades que urge voltar a viver e para as novas conspirações que urge voltar a iniciar. Na companhia de Jesus e de ateus. E do Pe. Maximino e de Maria de Lurdes e de todos os outros mortos ressuscitados. Cuidem­se, porque os dias que vivemos são de chumbo. E é Inverno.

Pe. Mário Oliveira

9 Comments:

  • António Melenas,

    Muito obrigada.
    Fiquei hoje a conhecer muito melhor o Padre Max.

    Homenagem linda e merecida!

    Um abraço para si daqui de Aveiro.

    By Anonymous Anónimo, at 02 abril, 2007 17:51  

  • Uma história da vida de alguél que eu desconhecia.

    Boa Páscoa

    Bjs Zita

    By Anonymous Anónimo, at 03 abril, 2007 22:41  

  • Meu caro António,
    Com toda a sinceridade, vou querer ler o teu escrito do Padre Max com a máxima reflexão, pois foi um tema que me apaixonou toda a vida deste militante. Não vou fazê-lo agora. Oportunamente terei o gosto de postar o meu comentário.
    Por agora quero retribuir-te o desejo de uma boa e tranquila Páscoa.
    Obrigado.

    Um abraço amigo
    Pepe.

    By Blogger Pepe Luigi, at 06 abril, 2007 00:11  

  • Os meus parabéns pelo seu poste.
    De facto, este país já começou a descambar há muito tempo para um novo tipo de fascismo, não fossem os filhotes dele terem voltado ao poder pouco depois do 25 de Abril.

    "Contem comigo para as novas clandestinidades que urge voltar a viver e para as novas conspirações que urge voltar a iniciar. Na companhia de Jesus e de ateus. E do Pe. Maximino e de Maria de Lurdes e de todos os outros mortos ressuscitados. Cuidem­‑se, porque os dias que vivemos são de chumbo. E é Inverno", escreveu o Pe Mário Oliveira e eu subscrevo.
    Um abraço, amigo.

    By Blogger zé lérias (?), at 07 abril, 2007 02:38  

  • Caro António: acompanhei na altura e sei de toda – ou quase toda a história da morte do padre Max de Sousa e da jovem Maria de Lurdes, brutalmente assassinados em Abril de 1976, às ordens do MDLP, do ELP e dum cónego da Sé de Braga, pelo crime único de ter consciência social e de ser simpatizante da UDP. Os criminosos ainda andam por aí... 31 anos depois é com emoção que encontro aqui uma justa referência, que muito me sensibilizou. Bem-haja.

    By Anonymous Anónimo, at 08 abril, 2007 05:58  

  • A história é feita pelos vencedores.
    A luta continua, ainda que nem todos usem o mesmo tipo de armas, Maximino e Maria são um farol a seguir.
    Abatidos como cordeiros pascais, devemos-lhes honras que em vida recusariam.
    Bem hajas pela tua memoria
    Um abra

    By Blogger Erecteu, at 08 abril, 2007 21:51  

  • António,
    só hoje me deu para vir a este teu canto e penenticio-me por ainda não ter agradecido, sei que para ti não é importante, mas para mim é, por ti e por mim.
    Sabes, sempre te imaginei solidário, mas ao visitar o teu outro canto, ficava sempre a pensar que te tinhas esquecido, "entrava mudo e saía
    calado", não me enganei e sinto-me feliz.
    Com muitos padres como estes se calhar até era católico praticante.
    Um abraço.

    By Blogger Arauto da Ria, at 12 abril, 2007 00:26  

  • Caro Antonio,
    Um grande OBRIGADO por trazeres à ribalta assuntos como este, hediondamente perpetrados.
    Quem não se lembra do saudoso Humberto Delgado?
    Quem já esqueceu os acontecimentos da Capela do Rato?
    Todos estes temas deveriam ser lidos e relidos para não acontecer a pouca vergonha da "reeleição" de Oliveira Salazar. A ocultação das verdades que deveriam ser ditas nas escolas são consideradas crimes.
    Por tal assistimos hoje a um Show de Xaxa na Tvi em que, "coitadas elas não tem culpa", a ignorância leva ao ponto de, moças que rondam os vinte e poucos anos, não saberem o que foi o 25 de Abril. Ao menos numa palavra dissessem: Revolução (insureição contra o poder estabelecido).

    Aproveito a ocasião para linkares o endereço:

    http://www.estudioraposa.com/index.php?id=194

    Trata-se do rádioblog onde estão a ser lidos, entre outros, três trabalhos meus e uma singela autobiografia, declamados pelo ex-radiofónico do RCP colega do Luís
    Filipe Costa, na sua excelente voz.

    Um abraço amigo
    Pepe

    By Blogger Pepe Luigi, at 13 abril, 2007 13:33  

  • Um caso pouco lembrado, o do padre Max e de Lurdes. As saias da igreja são longas...

    By Blogger Ana Saraiva, at 13 janeiro, 2008 17:47  

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