ENQUANTO E NAO

domingo, maio 28, 2006

AI TIMOR...

Se inicialmente tinha suspeitas, como neste blogue mais de uma vez referi, de que as acções violentas que há cerca de um mês decorrem em Timor Leste, parecem configurar uma tentativa de golpe de Estado, hoje essas suspeitas transformaram-se em certezas.

Disfarçadas de meras reivindicações antes do congresso da Fretilin, na esperança de poder condicionar o seu resultado e claramente insurreccionais depois de o Congresso ter dado uma clara vitoria a Mari Alkatiri e o consequente apoio à manutenção do seu governo, as forças interessadas no seu derrube têm vindo a apostar num escalada de violência susceptível de provocar a total ingovernabilidade do país e dessa maneira lograrem alcançar a satisfação dos seus obscuros intentos.

Todos sabemos que enquanto grande parte da população ansiava libertar-se do domínio indonésio, houve muitos que nunca aceitaram de bom grado a situação instaurada pelos vencedores. Entre estes contam-se não só os antigos quadros e familiares da administração indonésia, mas também muitos pretensos oposicionistas de fachada, que ficaram sempre ao meio a ver para que lado caíam as coisas e que no final não se conformaram – porque o povo neles não confiava – por terem ficado arredados da governação. Mas também os vizinhos australianos, que contavam preencher o lugar da Indonésia, quando esta se retirasse, na exploração das riquezas naturais de Timor, ficaram muito ressabiados por o governo timorense não lhes permitir tanto como pretendiam os seus apetites hegemónicos nessa exploração. Mas também a igreja católica, que durante séculos foi mentora das consciências do povo maubere não vê com bons olhos a existência de uma governação laica, onde a sua influência fica reduzida

São todos esses que, agora, aproveitando ou fomentado a confusão, espreitam na sombra o momento em que poderão reverter em seu proveito as oportunidades que actual governo lhes tem negado, indiferentes ao facto de que com tal confusão o poder esteja caindo na rua, abrindo caminho à acção criminosa de bandos de marginais que saqueiam, incendeiam e matam as populações indefesas, perante a inércia das tropas australianas que supostamente teriam desembarcado para ajudar a restabelecer a ordem. Ainda ontem passaram imagens na BBC onde de se vêm grupos de jovens a destruir casas, com os militares australianos parados, a assistir.

E o Presidente Xanana Gusmão, o que tem feito, durante esta crise? Além de não ter feito nada de positivo, tem permitido que a sua mulher tenha vindo deitar azeite na fogueira, de uma forma inadmissível e violadora dos preceitos constitucionais.

É muito inquieto que assisto ao desenrolar de todos estes acontecimentos num país pelo qual tenho (e têm todos os portugueses) o maior carinho. Tenho a vaga sensação de estar a reviver acontecimentos longínquos em que um outro primeiro Primeiro ministro de um país recém-chegado à independência também foi vítima de igual conspiração por parte de compatriotas traidores e organizações internacionais que não viam com bons olhos a nacionalização de riquezas naturais por todos cobiçadas. Falo de Patrice Lumumba, Primeiro Ministro da República do Congo (ex-Belga) que acabou assassinado e o seu corpo diluído em ácido sulfúrico, pelas mesmas forças obscuras que agiam e continuam a agir, na sombra, para impedirem que outros usufruam das benesses que, por direito divino, se arrogam o direito de serem únicos e privilegiados merecedores.

Também no Congo havia um Presidente da República (Kasabuvu) de comportamento dúbio (pelo menos) e havia um major Reinado (Moisés Tshombé), cujo nome não saiu nada limpo nos trágicos acontecimentos que envolveram o seu bárbaro assassinato.

Só espero que eu esteja delirando e que esta associação de ideias não seja mais do que isso: delírio

De qualquer modo tendo evocado a morte de Patrice Lumumba, talvez não seja despropositado citar aqui um poema que lhe dediquei, na altura e que, obviamente, guardei bem guardadinho no fundo da gaveta. Até hoje



1925-1961

CANTO A PATRICE LUMUMBA

Patrice Lumumba está morto
disseram os jornais.
Mas todos sabiam
há muito
que estavas morto

O teu assassínio durou meses.
A tua agonia
foi longamente
barbaramente prolongada.
Negam-se a dizer o local da tua morte
mas nós sabemos onde te mataram.
O teu sangue
encharcou todos os cárceres
do Congo
por onde o ódio
dos teus assassinos te arrastou.
Nenhuma prisão
era suficientemente segura
para te guardar.
Nenhuma força
era suficientemente forte
para te domar.
Só a morte
(pensavam)
traria sossego
à sua miserável
existência de traidores.
Patrice Lumumba, estás morto
mas não a chama
que te incendiava o coração
não a força
que animava a tua luta.
Como que simbolicamente
não foste morto
num só lugar
Foste morto em muitos lugares
e por muita gente
Ma nós sabemos,
Patrice Lumumba,
nós sabemos
exactamente
quem te assassinou.

Os teus verdugos
não são negros
nem brancos
nem amarelos
pertencem a uma “raça”
definida
implacável e sanguinária:
o fascismo.
Os seus nomes são
Hammarskjoeld
Tshombé
Chang-Kai-Chek
Salazar
Franco
Trujillho
Somosa
americanos e belgas
tiranos
colonialistas
reaccionários
fascistas
de todo o mundo.

Patrice Lumumba está morto
Mas a simples evocação
do seu nome
encherá de pavor
as noites dos verdugos

Sim, Patrice,
não foi inútil
o sacrifício da tua vida!
Não foi em vão
que o sangue generoso
do teu corpo jovem
encharcou a terra misteriosa
do teu Congo amado!
Ele fará germinar a flor
do ódio
que guiará os passos
do teu povo
e aguçará a lança dos teus guerreiros!
O teu nome
será uma bandeira
na luta dos povos africanos!
A tua memória
será um incentivo
na luta de todos os povos,
PATRICE LUMUMBA!


Moscavide, 13-2-1961
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Patrice Lumumba, numa carta escrita à esposa em Janeiro de 1961 uma semana antes de ser esquartejado e dissolvido em ácido sulfúrico pelos capangas de Tshombé e de polícias belgas, de noite, no meio da mata, dizia:
“Nenhuma brutalidade, mau trato ou tortura me dobraram, porque prefiro morrer de cabeça erguida, com fé inquebrantável e uma profunda confiança no futuro do meu país a viver submetido e espezinhando princípios sagrados. Um dia a história nos julgará, mas não será a história escrita por Bruxelas, Paris, Washington ou pela Onu, mas sim pelos países emancipados do colonialismo e dos seus títeres”

Patrice Lumumba foi, até hoje, o unico Governante da Republica Democrática do Congo a ser eleito democraticamente. E já lá vão 46 anos!!! E qual foi o argumento que os colonialistas usaram para o destruir? Que tinha simpatias pelo comunismo. è sempre o mesmo argumento.

É bom que se aprenda com a história


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Veja hoje no meu outro Blogue:
http://escritosoutonais.blogspot.com
Uma nova estória
A VELHA SENHORA DA MORTE FELIZ
e
se gostou da minha crónica
"Peúgas Brancas,"
Então vai gostar ainda mais de a ouvir,
lida pela voz inconfundível de Luís Gaspar, em:
http://www.estudioraposa.com/
"Lugar aos Outros 04"